Moinho São Jorge: história industrial e futuro imobiliário em Santo André
O complexo da Avenida dos Estados reúne arquitetura industrial, memória da cidade, passivos e uma questão atual: como identificar usos capazes de recolocar partes do imóvel em operação?
1. O Moinho na formação industrial de Santo André
O Moinho São Jorge foi implantado no corredor marcado pela ferrovia, pelo rio Tamanduateí e pela Avenida dos Estados. Essa localização acompanhou a expansão industrial que fez de Santo André um dos grandes centros produtivos de São Paulo no século XX.
A Prefeitura registra a fundação em 1951 e reconhece a relevância econômica e cultural do conjunto. O edifício dedicado à produção de farinha dividiu espaço com uma Capela e com o salão de festas conhecido como Palácio de Mármore, inaugurado em 1960 segundo a administração municipal.[1]
Isso explica por que o imóvel não pode ser analisado apenas como uma grande área construída. Sua arquitetura registra uma atividade industrial específica; outros ambientes guardam parte da memória social de Santo André.
2. Uma cronologia documentada
O complexo nasce no período de expansão da indústria e da infraestrutura produtiva de Santo André.[1]
O salão de festas amplia a presença do Moinho na vida social e na memória da cidade.[1]
O processo municipal iniciado em 2011 avança até a aprovação de diretrizes pelo conselho em 2021. Em 2022, a ata do órgão ainda registrava a homologação como pendente.[3][4]
Consultor jurídico do proprietário afirma publicamente que o Moinho está sendo reformado. A declaração não vem acompanhada, na reportagem, de cronograma ou medição das obras.[5]
3. O que está em discussão no patrimônio
O parecer apresentado ao Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Paisagístico de Santo André considera o complexo industrial o objeto principal do estudo de tombamento.
O documento destaca o valor da edificação na paisagem, a arquitetura concebida para a produção de farinha, a Capela, o Palácio de Mármore, as obras artísticas e elementos ligados à antiga operação industrial.[3]
Em janeiro de 2021, o conselho aprovou por unanimidade o encaminhamento do tombamento para homologação e as diretrizes de preservação. Em abril de 2022, uma ata oficial ainda registrava que o processo aguardava essa homologação.[3][4]
O que isso significa para uma nova ocupação
Um projeto precisará distinguir os espaços cuja preservação é central, as edificações que podem receber adaptações e as intervenções que exigem aprovação. O estado atual do processo de tombamento deve ser confirmado antes de apresentar um projeto definitivo.
4. O proprietário declarou que estava reformando o Moinho
Essa informação precisa fazer parte da análise. Em reportagem publicada em outubro de 2025, Leonardo Batista, identificado como consultor jurídico do proprietário, declarou:
Declaração pública de outubro de 2025
“Estamos reformando o Moinho e tomando as medidas cabíveis para a retomada das atividades.” [5]
A declaração registra a posição pública da proprietária: ela apresentou intenção de manter o imóvel e retomar atividade. Para a análise imobiliária, porém, ainda precisamos saber o que foi efetivamente reformado, quais licenças foram obtidas, quanto já foi investido e qual seria o uso operacional pretendido.
As atas do conselho de patrimônio também registraram invasões e depredações e mencionaram esforços dos proprietários para proteger o salão e a Capela. Isso reforça a necessidade de vistoria atual, sem presumir que o imóvel esteja inteiramente abandonado ou que exista uma operação industrial ativa.[3][4]
5. Pressão pública, UFABC e desapropriação
O destino do Moinho também entrou no debate político municipal. Em abril de 2025, foi apresentada uma indicação parlamentar propondo desapropriação e cessão do imóvel à UFABC. Mais tarde, houve indicação para suspender temporariamente um leilão e permitir a análise de uso pela Universidade.[9][10]
Indicação parlamentar não é decreto de desapropriação. Ela demonstra uma proposta e pressão pública, sem provar que a propriedade foi transferida ou que o Poder Executivo iniciou uma desapropriação do complexo.
Em 22 de abril de 2026, a UFABC e as Indústrias Reunidas São Jorge assinaram um protocolo de intenções. O documento prevê estudar a viabilidade técnica, jurídica, patrimonial, ambiental e financeira de utilizar partes do imóvel para atividades culturais, sociais e de desenvolvimento tecnológico, com finalidade acadêmica e institucional.[6]
O protocolo demonstra interesse institucional em estudar uma possibilidade concreta. Ele não informa que a UFABC comprará ou alugará o imóvel, nem define quem pagaria uma reforma.
UFABC e Moinho São Jorge
Existe uma cooperação formal para estudar a utilização eventual de partes do complexo. A modalidade de ocupação, as obras, os recursos e a solução dos passivos ainda dependem de decisões futuras.
6. O que realmente aconteceu com o leilão de 2025
Este ponto exige separar discurso público de decisão judicial. Em outubro de 2025, a 1ª Vara da Fazenda Pública de Santo André sustou o leilão vinculado à execução fiscal 1501084-27.2015.8.26.0554.
A sentença, anexada a uma resposta oficial da Prefeitura à Câmara Municipal, informa o motivo: pagamento integral do débito daquela execução. O juiz extinguiu o processo, sustou aquele leilão e levantou a penhora nele realizada.[10]
A Prefeitura esclareceu no mesmo documento que não poderia suspender uma execução fiscal simplesmente por conveniência administrativa para facilitar negociações sobre o imóvel. Portanto, a declaração de reforma e o interesse pela UFABC não devem ser apresentados como a causa jurídica da sustação daquele leilão.[10]
Uma execução paga não significa passivo encerrado
A decisão extinguiu aquele processo específico e levantou a penhora correspondente. A situação de outras execuções e gravames exige exame individual dos autos e das quatro matrículas.
7. E o leilão anunciado para outubro de 2026?
Em setembro de 2026, o Diário do Grande ABC informou uma nova tentativa de leilão, associada a débito de aproximadamente R$ 74,86 milhões e a uma avaliação judicial de aproximadamente R$ 289,89 milhões.[7]
Depois da divulgação, o juiz determinou a retirada do edital. Segundo a reportagem de 19 de setembro, ele considerou a publicação prematura porque condições do procedimento ainda precisavam ser definidas judicialmente.[8]
Assim, não há base para anunciar outubro de 2026 como data confirmada de leilão. A retirada do edital também não significa quitação da dívida ou extinção da execução. O andamento atualizado dos autos será necessário para qualquer conclusão posterior.
8. Por que 100 mil m² construídos não são 100 mil m² disponíveis
A área construída divulgada reúne tipologias muito diferentes: edifício fabril vertical, silos, galpões, espaços de apoio, Capela e salão de festas. Essas áreas não possuem a mesma capacidade de adaptação, custo ou valor de mercado.[2]
A relação aproximada entre a área construída divulgada e a área do terreno é de 4,47. Esse quociente não representa coeficiente construtivo legal nem área locável. Ele apenas mostra que o aproveitamento econômico do complexo depende fortemente de sua estrutura vertical e da utilidade real de cada parte.
Edifício fabril
Conferir estrutura, cargas dos pisos, circulação vertical, instalações, acessibilidade e segurança contra incêndio.
Silos e equipamentos
Definir o que integra a memória produtiva e se há espaços seguros e tecnicamente adaptáveis para novos usos.
Galpões e apoio
Medir acessos, energia, vãos, pé direito e possibilidade de ocupação independente por diferentes usuários.
Palácio e Capela
Relacionar conservação, restauro, capacidade de público, operação e fonte permanente de manutenção.
Pátio e acessos
Separar circulação de veículos, pedestres e serviços; verificar vagas, drenagem e capacidade operacional.
Quatro matrículas
Associar cada área aos registros, gravames, restrições patrimoniais e possibilidades jurídicas de ocupação.
9. Caminhos possíveis de recolocação imobiliária
A Catena & Castro Real Estate não parte de um empreendimento pronto. Primeiro é necessário definir a capacidade física, jurídica e econômica de cada componente do Moinho.
Ocupação institucional
Utilização de parte adaptável por uma instituição, com investimento, operação e obrigações formalmente definidos.
Ocupação empresarial
Adaptação gradual de áreas independentes para atividades compatíveis com a estrutura e as diretrizes patrimoniais.
Programa combinado
Espaços de memória e uso público associados a atividades capazes de gerar receita para custear o conjunto.
Cada caminho deve passar por uma conta: investimento necessário, prazo de aprovação, receita provável, tributos, manutenção, recuperação das áreas históricas e pagamento ou garantia dos credores. Nenhuma dessas hipóteses suspende automaticamente uma execução judicial.
O valor do Moinho está nas partes e nas relações entre elas
Preservar o edifício principal, reconhecer a memória da produção e criar novas atividades exige um plano por fases. A viabilidade dependerá dos espaços efetivamente utilizáveis, dos usuários interessados e de uma estrutura financeira capaz de manter o patrimônio no longo prazo.
10. O que falta verificar antes de uma proposta
Registros
Certidões integrais das quatro matrículas e plantas das edificações.
Processos judiciais
Execuções, penhoras vigentes, credores, avaliações e novas decisões.
Patrimônio
Íntegra do processo municipal 41.623/2011 e atos posteriores.
Vistoria técnica
Condição atual das obras alegadas, estrutura e área recuperável por bloco.
Ambiente e urbanismo
Histórico ambiental, parâmetros urbanísticos e licenças aplicáveis.
Mercado
Usuários possíveis, custo de adaptação, receita e ocupação por fases.
11. Conclusão inicial
O Moinho São Jorge registra uma parte importante da trajetória industrial de Santo André. A dimensão do complexo, sua arquitetura e as discussões atuais sobre o imóvel justificam uma análise que una preservação, engenharia, direito e mercado imobiliário.
Há uma declaração pública de reforma e retomada pelo proprietário, há propostas políticas sobre o destino do bem e há um protocolo efetivo da UFABC para estudar partes do imóvel. Cada fato tem alcance diferente. Nenhum deles, isoladamente, comprova uma operação pronta ou resolve os passivos.
O próximo avanço concreto é transformar o complexo em um mapa de decisões: área por área, matrícula por matrícula, restrição por restrição, com custo de adaptação e usuário possível.
Fontes documentais
- Prefeitura de Santo André. Estudo de tombamento e histórico do Moinho São Jorge . 29 de agosto de 2016.
- LEJE. Dados divulgados sobre o complexo e o procedimento de leilão . 4 de setembro de 2026.
- COMDEPHAAPASA. Ata da reunião de 19 de janeiro de 2021 , especialmente páginas 10 a 13.
- COMDEPHAAPASA. Ata de abril de 2022 , especialmente página 2.
- ABCD Jornal. Declaração do consultor jurídico do proprietário . 20 de outubro de 2025.
- UFABC. Extrato do Protocolo de Intenções nº 02/2026 . Processo 23006.005737/2026-10.
- Diário do Grande ABC. Notícia sobre avaliação e execução divulgadas em setembro . 4 de setembro de 2026.
- Diário do Grande ABC. Notícia sobre a retirada do edital de leilão . 19 de setembro de 2026.
- Câmara Municipal de Santo André. Indicação nº 1492/2025 , processo 2468/2025.
- Prefeitura de Santo André. Ofício 19.10.2025-SAJ e sentença judicial anexada . Resposta à indicação sobre o leilão de 2025.
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