Moinho São Jorge em Santo André: história, patrimônio e futuro imobiliário

CCRE Research · Patrimônio Industrial · Santo André

Moinho São Jorge: história industrial e futuro imobiliário em Santo André

Fachada histórica do Moinho São Jorge, na Avenida dos Estados, em Santo André
Moinho São Jorge, Santo André. Foto histórica: Gagomon / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

O complexo da Avenida dos Estados reúne arquitetura industrial, memória da cidade, passivos e uma questão atual: como identificar usos capazes de recolocar partes do imóvel em operação?

Santo André Moinho São Jorge Patrimônio Industrial UFABC Real Estate Industrial CCRE Research
1951 Ano de fundação informado pela Prefeitura de Santo André.[1]
22.550 m² Área do terreno divulgada no procedimento de leilão.[2]
100.697 m² Área construída divulgada, ainda sujeita à conferência documental.[2]
4 matrículas Registros que, segundo o leiloeiro, formam fisicamente o complexo.[2]
A história do Moinho São Jorge faz parte da história produtiva de Santo André. A Catena & Castro Real Estate estuda o complexo como patrimônio da cidade e como ativo industrial de grande porte: quais edificações podem ser recuperadas, quais usos seriam compatíveis e o que seria necessário para uma ocupação economicamente sustentável.

1. O Moinho na formação industrial de Santo André

O Moinho São Jorge foi implantado no corredor marcado pela ferrovia, pelo rio Tamanduateí e pela Avenida dos Estados. Essa localização acompanhou a expansão industrial que fez de Santo André um dos grandes centros produtivos de São Paulo no século XX.

A Prefeitura registra a fundação em 1951 e reconhece a relevância econômica e cultural do conjunto. O edifício dedicado à produção de farinha dividiu espaço com uma Capela e com o salão de festas conhecido como Palácio de Mármore, inaugurado em 1960 segundo a administração municipal.[1]

Isso explica por que o imóvel não pode ser analisado apenas como uma grande área construída. Sua arquitetura registra uma atividade industrial específica; outros ambientes guardam parte da memória social de Santo André.

2. Uma cronologia documentada

1951 Fundação do Moinho São Jorge

O complexo nasce no período de expansão da indústria e da infraestrutura produtiva de Santo André.[1]

1960 Palácio de Mármore

O salão de festas amplia a presença do Moinho na vida social e na memória da cidade.[1]

2011 a 2022 Estudo de proteção patrimonial

O processo municipal iniciado em 2011 avança até a aprovação de diretrizes pelo conselho em 2021. Em 2022, a ata do órgão ainda registrava a homologação como pendente.[3][4]

2025 Proprietário declara intenção de reforma e retomada

Consultor jurídico do proprietário afirma publicamente que o Moinho está sendo reformado. A declaração não vem acompanhada, na reportagem, de cronograma ou medição das obras.[5]

2026 UFABC assina protocolo de intenções

Universidade e proprietária formalizam estudo sobre a eventual utilização de partes do imóvel. Um edital de leilão publicado posteriormente é retirado por determinação judicial em setembro.[6][8]

3. O que está em discussão no patrimônio

O parecer apresentado ao Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Paisagístico de Santo André considera o complexo industrial o objeto principal do estudo de tombamento.

O documento destaca o valor da edificação na paisagem, a arquitetura concebida para a produção de farinha, a Capela, o Palácio de Mármore, as obras artísticas e elementos ligados à antiga operação industrial.[3]

Em janeiro de 2021, o conselho aprovou por unanimidade o encaminhamento do tombamento para homologação e as diretrizes de preservação. Em abril de 2022, uma ata oficial ainda registrava que o processo aguardava essa homologação.[3][4]

O que isso significa para uma nova ocupação

Um projeto precisará distinguir os espaços cuja preservação é central, as edificações que podem receber adaptações e as intervenções que exigem aprovação. O estado atual do processo de tombamento deve ser confirmado antes de apresentar um projeto definitivo.

4. O proprietário declarou que estava reformando o Moinho

Essa informação precisa fazer parte da análise. Em reportagem publicada em outubro de 2025, Leonardo Batista, identificado como consultor jurídico do proprietário, declarou:

Declaração pública de outubro de 2025

“Estamos reformando o Moinho e tomando as medidas cabíveis para a retomada das atividades.” [5]

A declaração registra a posição pública da proprietária: ela apresentou intenção de manter o imóvel e retomar atividade. Para a análise imobiliária, porém, ainda precisamos saber o que foi efetivamente reformado, quais licenças foram obtidas, quanto já foi investido e qual seria o uso operacional pretendido.

As atas do conselho de patrimônio também registraram invasões e depredações e mencionaram esforços dos proprietários para proteger o salão e a Capela. Isso reforça a necessidade de vistoria atual, sem presumir que o imóvel esteja inteiramente abandonado ou que exista uma operação industrial ativa.[3][4]

5. Pressão pública, UFABC e desapropriação

O destino do Moinho também entrou no debate político municipal. Em abril de 2025, foi apresentada uma indicação parlamentar propondo desapropriação e cessão do imóvel à UFABC. Mais tarde, houve indicação para suspender temporariamente um leilão e permitir a análise de uso pela Universidade.[9][10]

Indicação parlamentar não é decreto de desapropriação. Ela demonstra uma proposta e pressão pública, sem provar que a propriedade foi transferida ou que o Poder Executivo iniciou uma desapropriação do complexo.

Em 22 de abril de 2026, a UFABC e as Indústrias Reunidas São Jorge assinaram um protocolo de intenções. O documento prevê estudar a viabilidade técnica, jurídica, patrimonial, ambiental e financeira de utilizar partes do imóvel para atividades culturais, sociais e de desenvolvimento tecnológico, com finalidade acadêmica e institucional.[6]

O protocolo demonstra interesse institucional em estudar uma possibilidade concreta. Ele não informa que a UFABC comprará ou alugará o imóvel, nem define quem pagaria uma reforma.

Situação documentada

UFABC e Moinho São Jorge

Existe uma cooperação formal para estudar a utilização eventual de partes do complexo. A modalidade de ocupação, as obras, os recursos e a solução dos passivos ainda dependem de decisões futuras.

Confirmado Protocolo de intenções assinado em abril de 2026.
Em estudo Viabilidade técnica, jurídica, patrimonial, ambiental e financeira.
Sem definição pública Compra, locação, cessão, custeio das obras e área a ocupar.

6. O que realmente aconteceu com o leilão de 2025

Este ponto exige separar discurso público de decisão judicial. Em outubro de 2025, a 1ª Vara da Fazenda Pública de Santo André sustou o leilão vinculado à execução fiscal 1501084-27.2015.8.26.0554.

A sentença, anexada a uma resposta oficial da Prefeitura à Câmara Municipal, informa o motivo: pagamento integral do débito daquela execução. O juiz extinguiu o processo, sustou aquele leilão e levantou a penhora nele realizada.[10]

A Prefeitura esclareceu no mesmo documento que não poderia suspender uma execução fiscal simplesmente por conveniência administrativa para facilitar negociações sobre o imóvel. Portanto, a declaração de reforma e o interesse pela UFABC não devem ser apresentados como a causa jurídica da sustação daquele leilão.[10]

Uma execução paga não significa passivo encerrado

A decisão extinguiu aquele processo específico e levantou a penhora correspondente. A situação de outras execuções e gravames exige exame individual dos autos e das quatro matrículas.

7. E o leilão anunciado para outubro de 2026?

Em setembro de 2026, o Diário do Grande ABC informou uma nova tentativa de leilão, associada a débito de aproximadamente R$ 74,86 milhões e a uma avaliação judicial de aproximadamente R$ 289,89 milhões.[7]

Depois da divulgação, o juiz determinou a retirada do edital. Segundo a reportagem de 19 de setembro, ele considerou a publicação prematura porque condições do procedimento ainda precisavam ser definidas judicialmente.[8]

Assim, não há base para anunciar outubro de 2026 como data confirmada de leilão. A retirada do edital também não significa quitação da dívida ou extinção da execução. O andamento atualizado dos autos será necessário para qualquer conclusão posterior.

8. Por que 100 mil m² construídos não são 100 mil m² disponíveis

A área construída divulgada reúne tipologias muito diferentes: edifício fabril vertical, silos, galpões, espaços de apoio, Capela e salão de festas. Essas áreas não possuem a mesma capacidade de adaptação, custo ou valor de mercado.[2]

A relação aproximada entre a área construída divulgada e a área do terreno é de 4,47. Esse quociente não representa coeficiente construtivo legal nem área locável. Ele apenas mostra que o aproveitamento econômico do complexo depende fortemente de sua estrutura vertical e da utilidade real de cada parte.

1

Edifício fabril

Conferir estrutura, cargas dos pisos, circulação vertical, instalações, acessibilidade e segurança contra incêndio.

2

Silos e equipamentos

Definir o que integra a memória produtiva e se há espaços seguros e tecnicamente adaptáveis para novos usos.

3

Galpões e apoio

Medir acessos, energia, vãos, pé direito e possibilidade de ocupação independente por diferentes usuários.

4

Palácio e Capela

Relacionar conservação, restauro, capacidade de público, operação e fonte permanente de manutenção.

5

Pátio e acessos

Separar circulação de veículos, pedestres e serviços; verificar vagas, drenagem e capacidade operacional.

6

Quatro matrículas

Associar cada área aos registros, gravames, restrições patrimoniais e possibilidades jurídicas de ocupação.

9. Caminhos possíveis de recolocação imobiliária

A Catena & Castro Real Estate não parte de um empreendimento pronto. Primeiro é necessário definir a capacidade física, jurídica e econômica de cada componente do Moinho.

1

Ocupação institucional

Utilização de parte adaptável por uma instituição, com investimento, operação e obrigações formalmente definidos.

2

Ocupação empresarial

Adaptação gradual de áreas independentes para atividades compatíveis com a estrutura e as diretrizes patrimoniais.

3

Programa combinado

Espaços de memória e uso público associados a atividades capazes de gerar receita para custear o conjunto.

Cada caminho deve passar por uma conta: investimento necessário, prazo de aprovação, receita provável, tributos, manutenção, recuperação das áreas históricas e pagamento ou garantia dos credores. Nenhuma dessas hipóteses suspende automaticamente uma execução judicial.

Leitura imobiliária da CCRE

O valor do Moinho está nas partes e nas relações entre elas

Preservar o edifício principal, reconhecer a memória da produção e criar novas atividades exige um plano por fases. A viabilidade dependerá dos espaços efetivamente utilizáveis, dos usuários interessados e de uma estrutura financeira capaz de manter o patrimônio no longo prazo.

Patrimônio O que precisa permanecer e quais intervenções podem ser aprovadas.
Operação Quais áreas podem receber usuários e funcionar com segurança.
Economia Quem investe, quem ocupa, quem mantém e como os credores são tratados.

10. O que falta verificar antes de uma proposta

1

Registros

Certidões integrais das quatro matrículas e plantas das edificações.

2

Processos judiciais

Execuções, penhoras vigentes, credores, avaliações e novas decisões.

3

Patrimônio

Íntegra do processo municipal 41.623/2011 e atos posteriores.

4

Vistoria técnica

Condição atual das obras alegadas, estrutura e área recuperável por bloco.

5

Ambiente e urbanismo

Histórico ambiental, parâmetros urbanísticos e licenças aplicáveis.

6

Mercado

Usuários possíveis, custo de adaptação, receita e ocupação por fases.

11. Conclusão inicial

O Moinho São Jorge registra uma parte importante da trajetória industrial de Santo André. A dimensão do complexo, sua arquitetura e as discussões atuais sobre o imóvel justificam uma análise que una preservação, engenharia, direito e mercado imobiliário.

Há uma declaração pública de reforma e retomada pelo proprietário, há propostas políticas sobre o destino do bem e há um protocolo efetivo da UFABC para estudar partes do imóvel. Cada fato tem alcance diferente. Nenhum deles, isoladamente, comprova uma operação pronta ou resolve os passivos.

O próximo avanço concreto é transformar o complexo em um mapa de decisões: área por área, matrícula por matrícula, restrição por restrição, com custo de adaptação e usuário possível.

Nota CCRE Research. Estudo independente baseado em documentação pública consultada até 25 de setembro de 2026. Não representa anúncio de venda, avaliação comercial, proposta de aquisição ou representação dos proprietários. A situação judicial e administrativa deve ser atualizada antes de decisões ou publicação posterior.

Fontes documentais

  1. Prefeitura de Santo André. Estudo de tombamento e histórico do Moinho São Jorge . 29 de agosto de 2016.
  2. LEJE. Dados divulgados sobre o complexo e o procedimento de leilão . 4 de setembro de 2026.
  3. COMDEPHAAPASA. Ata da reunião de 19 de janeiro de 2021 , especialmente páginas 10 a 13.
  4. COMDEPHAAPASA. Ata de abril de 2022 , especialmente página 2.
  5. ABCD Jornal. Declaração do consultor jurídico do proprietário . 20 de outubro de 2025.
  6. UFABC. Extrato do Protocolo de Intenções nº 02/2026 . Processo 23006.005737/2026-10.
  7. Diário do Grande ABC. Notícia sobre avaliação e execução divulgadas em setembro . 4 de setembro de 2026.
  8. Diário do Grande ABC. Notícia sobre a retirada do edital de leilão . 19 de setembro de 2026.
  9. Câmara Municipal de Santo André. Indicação nº 1492/2025 , processo 2468/2025.
  10. Prefeitura de Santo André. Ofício 19.10.2025-SAJ e sentença judicial anexada . Resposta à indicação sobre o leilão de 2025.

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