Revista Combustíveis e Conveniência Entrevista Inácio Rodrigo de Castro

Em locais onde há forte especulação imobiliária, um terreno pode
valer mais do
que o negócio nele instalado – pelo menos é esta a visão dos proprietários dos
imóveis e de alguns revendedores com problemas na operação.
Há cerca de um ano, o terreno onde funcionava o Posto Marujo, na
capital
carioca, foi vendido. O posto foi destruído e, no local, um prédio comercial
está sendo erguido. Álvaro Marujo, proprietário do posto que funcionava no
terreno alugado da Shell, contou que a companhia o procurou e ofereceu o imóvel.
“O valor, porém, era muito alto e tivemos de abrir mão da oferta. O terreno foi
vendido então para um terceiro, que tinha outros planos para o local”, contou.
“O novo proprietário queria alterar o valor do aluguel e fiquei
sem alternativa.
Preferi vender o fundo de comércio”. O posto tinha uma venda média mensal de 300
mil litros, mas o empresário contou que o fundo de comércio foi desvalorizado na
transação.
Este caso ilustra uma situação que começa a acontecer com maior
freqüência em
áreas de forte especulação imobiliária. Em bairros nobres de algumas capitais,
postos de combustíveis tradicionais estão dando lugar a outros empreendimentos,
em geral prédios comerciais ou residenciais de alto padrão. No entanto, quase
nunca isso ocorre por iniciativa e vontade do revendedor. Na maior parte dos
casos, o terreno onde funciona o posto pertence a terceiros, que vislumbram
maiores lucros com a venda do imóvel do que com o aluguel. O revendedor, nesta
situação, tem seu fundo de comércio depreciado, em função do alto aluguel, e
normalmente não dispõe de capital para comprar o terreno.
“Em bairros muito valorizados, como por exemplo na Tijuca, no
Rio de Janeiro
(RJ), o metro quadrado chega a valer R$ 1 milhão. Já um posto que vende cerca de
100 mil litros mensais, pode chegar a um lucro bruto de R$ 30 mil, se somar à
venda de combustíveis a rentabilidade resultante de outros produtos além do
combustível propriamente dito (como lubrificantes).
O aluguel do terreno costuma ser algo entre 25% e 30% deste
valor bruto. Não é difícil imaginar porque o
locador prefere vender o imóvel, e qual o motivo do proprietário do posto
desistir ou entregar a operação”, explicou Tasso Verçosa Rocha, sócio gerente da
Líder, uma corretora que opera em todo o Estado do Rio de Janeiro e que tem um
departamento especializado em compra e venda de postos. “Porém, o novo
proprietário do imóvel só pode propor mudanças no contrato de aluguel se o mesmo
estiver vencido ou não estiver corretamente registrado no RGI (Registro Geral de
Imóveis). São raros os casos de denúncia vazia – e nestas situações, cabe
indenização ao operador do negócio instalado no terreno”, disse Rocha. Além
disso, o direito de continuar com o negócio deverá ser analisado levando em
consideração há quanto tempo o inquilino exerce o seu comércio no local.
Segundo ele, a única maneira de um operador se precaver em
relação a uma
surpresa destas é manter-se atento às datas de renovação de contrato de aluguel,
e também respeitar as regras comerciais do contrato com a distribuidora. “Muitas
vezes a bandeira não vende o terreno apenas porque a área é valorizada, mas sim
porque o negócio não a interessa mais”, afirmou. “Na Zona Sul do Rio, nos
últimos dois anos, seis postos que funcionavam em terrenos de distribuidoras
foram vendidos, quatro deles neste ano”, contou. Por isso, de acordo com o
corretor, até para comprar um fundo de comércio de um posto é importante
precaver-se. “É fundamental verificar o contrato de aluguel, e só efetivar a
negociação se este documento tiver validade superior a cinco anos, com
possibilidade de renovação, e estiver devidamente registrado. Caso contrário,
corre-se o risco de o terreno ser vendido e o novo proprietário esperar apenas o
vencimento do contrato para querer renegociar os valores, ou mesmo para pedir o
imóvel”.
Eduardo Benetti, diretor do Portal de Postos (que reúne diversos
serviços para o
segmento, inclusive compra e venda de postos), confirmou que este problema é
realmente mais freqüente quando o imóvel é alugado, seja por iniciativa do
locador ou do locatário. “Se o proprietário do posto é também dono do terreno,
dificilmente vai querer se desfazer do negócio ou mudar de ramo. Estas áreas são
muito valorizadas para o comércio, e quando há espaço é possível instalar
diversos serviços na área do empreendimento, o que garante uma lucratividade
melhor”, disse.
Segundo ele, casos de terrenos de postos que deram lugar a
outros
empreendimentos imobiliários têm ocorrido com maior freqüência em bairros nobres
de São Paulo e Rio de Janeiro, e também em Florianópolis (SC). Há situações em
que o revendedor é praticamente obrigado a sair do negócio – como a relatada no
início desta reportagem, com o Posto Marujo. Porém, em algumas circunstâncias, o
empresário responsável pela operação do posto (dono do fundo de comércio) é quem
desiste de continuar com o negócio. “Em áreas muito valorizadas, o preço do
aluguel pode inviabilizar a operação. Mesmo que o estabelecimento ofereça
diversos serviços, o fato do terreno ser alugado compromete a rentabilidade. Por
exemplo, em algumas regiões de São Paulo, o valor do aluguel pode chegar a R$ 20
mil. Se um posto localizado em alguma destas regiões praticar uma margem baixa,
em função de dificuldades comerciais ou problemas de concorrência, este aluguel
pode ficar totalmente fora da realidade do empresário. Seria o caso, por
exemplo, de um posto com vendas da ordem de 250 mil litros e faturamento de R$
35 mil. Em casos como este, muitas vezes é o próprio revendedor que entrega o
negócio”, explicou.
Foi o que aconteceu com um dos revendedores cariocas cujo
negócio deu lugar a um
empreendimento imobiliário. Este empresário, que preferiu não se identificar,
optou por desistir do negócio em função de sérios problemas financeiros. Com a
contabilidade negativa e as dívidas se acumulando, ele optou por devolver o
imóvel. Diante das circunstâncias, o fundo de comércio também estava depreciado
e o prejuízo foi muito grande.
Mas os corretores consideram que situações como esta sejam
exceções. “Este
mercado está inclusive bastante aquecido. Há grande interesse de compra de
postos (fundo de comércio)”, garantiu Rodrigo Castro, um dos proprietários da
Catena & Castro, uma empresa que está no mercado há 17 anos e especializou-se em
negócios envolvendo postos de combustíveis. “Em geral, a cada dez solicitações,
oito são de pessoas interessadas em comprar um posto revendedor, enquanto apenas
duas querem vender”, completou.Sem generalizar
Na opinião de Castro, não é possível generalizar os casos de
postos cujos
terrenos foram vendidos para outras finalidades e empreendimentos imobiliários.
“Os exemplos são casos isolados e cada qual deveria ser analisado separadamente.
Há vários fatores que podem ter levado a esta situação, desde a dificuldade de
operação com altos aluguéis, até o interesse do proprietário do imóvel”,
afirmou. “Em princípio, uma companhia de combustível dificilmente abre mão da
sua bandeira em um determinado local. É possível que existam outras razões
envolvidas”.
Dentre estas possíveis razões, um fator que chama a atenção é a
necessidade de
adequação ecológica. Postos antigos em geral têm algum passivo ambiental a ser
corrigido, além de equipamentos obsoletos que necessitam ser trocados. Se esta
situação estiver aliada a um aluguel alto e à conseqüente baixa rentabilidade, é
bem possível que o empresário opte por desistir da operação.
A concorrência também é um dos fatores de desvalorização do
posto. Em algumas
áreas, onde há guerra de preços e práticas pouco éticas, normalmente o negócio
torna-se inviável para os empresários sérios. Se o local for valorizado, não
faltarão compradores para o posto, embora estejam interessados somente no
terreno.
Castro lembrou que a presença de postos em áreas mais nobres tem
raízes
históricas. No passado, os postos de combustíveis dependiam de liberação do
governo federal para funcionar, o que sempre limitou a abertura de novos
negócios. “Aqueles que conseguiram esta liberação mantiveram seus
empreendimentos ao longo dos anos. Com a valorização imobiliária de determinadas
regiões, com zoneamentos específicos, tornaram-se pontos com alto valor
agregado. Este fator pode ocorrer em qualquer cidade, mas tem um maior destaque
nas grandes capitais, onde a disponibilidade de áreas nobres é cada vez menor”,
ressaltou.
Mas afinal, quanto vale um posto?
Esta é uma questão difícil de responder. O valor do posto é, na
verdade, o seu
fundo de comércio. Ou seja, é um valor calculado com base em diversas variáveis,
como localização, possibilidade de concorrência nas imediações, fluxo de
veículos com potencial no aumento das vendas, lojas de conveniência e outros
serviços agregados, contratos com as distribuidoras e, principalmente, a venda
média atingida. Postos localizados em vias com grande fluxo de veículos são mais
valorizados. Mas há outros aspectos levados em consideração, como localização do
posto em relação aos concorrentes da região, vias de acesso ao estabelecimento,
qual o perfil dos consumidores locais, se o bairro é residencial, comercial ou
misto, e se há facilidade de entrada e saída do posto. Reformas recentes, com
troca de equipamentos, também valorizam o fundo de comércio.
Em geral, postos com aluguéis altos, têm fundo de comércio
baixo, já que a
rentabilidade é menor. Isso quer dizer que, caso o empresário desista do posto
em função do aluguel muito alto, provavelmente venderá seu fundo de comércio de
forma desvantajosa. “Por isso, sempre recomendamos a contratação de uma
assessoria comercial e jurídica para orientar a negociação. É importante que a
transação seja fundamentada dentro da realidade do mercado”, disse Castro.
Sem surpresas
Para não ser surpreendido com a decisão de venda do terreno onde
o posto está
instalado e com a possibilidade do novo proprietário ter outros planos para o
local, é fundamental manter o contrato de locação em dia. Afinal, quem compra o
imóvel com intenção de construir outro tipo de empreendimento, não tem interesse
em um inquilino com contrato a vencer muito tempo depois, e ainda com
possibilidade de renovação e discussão judicial para manutenção do mesmo. Vale
lembrar que o direito de continuar com o negócio, no caso de uma possível
discussão judicial, é analisado levando em consideração o período de tempo em
que o inquilino exerceu o seu comércio no local.
“Esta questão do contrato também deve ser observada por quem
pensa em comprar um
fundo de comércio. Não vale a pena comprar se o contrato tem vigência inferior a
cinco anos”, alertou Tasso Verçosa Rocha, sócio gerente da Líder. Além disso, na
hora da compra, se o terreno do posto pertence à distribuidora, é importante
avaliar seu interesse de permanência na região. Muitas vezes, embora o terreno
seja mais valorizado do que o fundo de comércio, a empresa tem interesse em
manter sua bandeira na região.
No caso do proprietário optar pela venda do imóvel, o inquilino
deve ser o
primeiro a ser consultado. “Ele tem prioridade de compra”, garantiu
Rodrigo Castro, diretor da Catena & Castro. “O inquilino tem um prazo
para se manifestar, e o valor efetivamente negociado com o interessado na compra
deve ser também ofertado ao locatário. Deve-se apresentar, por escrito, uma
opção de compra, com prazo determinado. O imóvel só poderá ser vendido a
terceiros se não houver interesse do inquilino”.
Segundo Castro, para garantir uma boa negociação, seja em
situações de
compra ou venda de fundo de comércio, é fundamental contar com uma assessoria
especializada. “A negociação não pode levar em conta somente o aspecto
financeiro, mas também questões de mercado, jurídicas e a própria condição do
posto (se necessita ou não de reforma, se está em conformidade com as
legislações vigentes)”.
http://www.fecombustiveis.org.br/revista/mercado/quando-o-terreno-vale-m....
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