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Investimento em Florestas no Brasil

DINHEIRO QUE NASCE EM ÁRVORE
Impulsionado pelo consumo na China e pela ameaça do aquecimento global, os investimentos em florestas nunca foram tão expressivos.

Acompanhe os números:
52 bilhões de dólares é quanto as Timos — empresas que investem na compra de florestas e as gerenciam — têm em ativos no mundo atualmente 8 bilhões de dólares é quanto elas têm hoje para investir em todo planeta 2 bilhões de dólares é quanto elas deverão direcionar para o Brasil nos próximos cinco anos

Fontes: Fleury Malheiros, Gasparini, De Cresci e Nogueira de Lima; Equator Environmental
 
O paulista Eduardo Schubert, de 52 anos, passa boa parte do seu dia pensando em florestas. Não que ele seja um tree hugger (em português, "abraçador de árvore"), termo debochado que ingleses e americanos usam para descrever aquele tipo de ambientalista caricato — e muitas vezes inconveniente. Formado em administração e ex-dono de uma empresa de pesquisas de marketing, Schubert se encantou por árvores há dois anos, quando criou, em parceria com um amigo (ex-sócio da consultoria McKinsey), a Timber Value, empresa dedicada a plantar florestas de eucalipto e de pinus.

A Timber Value já recebeu 40 milhões de dólares de investidores — sobretudo fundos de pensão dos Estados Unidos e da Europa, seguradoras, endowments de universidades (fundos formados por doações) e family offices (administradores de recursos de controladores de grandes empresas e dos de seus herdeiros) — e é dona de 6 500 hectares de florestas nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Até o final do ano, a meta é que a área administrada pela Timber Value alcance 50 000 hectares, o equivalente a pouco mais que o tamanho da cidade de Porto Alegre. Para isso, Schubert espera receber investimentos de 60 milhões de dólares até o final de 2008. Os estrangeiros estão especialmente interessados em negócios que envolvam o meio ambiente — sobretudo sua conservação — e isso também tem estimulado investidores brasileiros.

Em dezembro de 2007, o fundo brasileiro de investimentos Stratus comprou uma participação na Timber Value (os valores do negócio não são revelados). "Os investimentos florestais vão crescer absurdamente nos próximos anos e o Brasil tem vantagens competitivas únicas para sair na frente", diz Wagner Duduch, executivo do Stratus. Embora a declaração de Duduch pareça entusiasmada demais, pesquisas indicam que ele pode estar certo. Hoje, as empresas americanas que investem em madeira (conhecidas como Timos) já possuem cerca de 40 bilhões de dólares aplicados em florestas. Impulsionada pelo consumo de países emergentes como China e Índia, porém, a demanda não pára de crescer.
Levantamento realizado no ano passado pelo banco Merrill Lynch com os 80 maiores fundos de pensão dos Estados Unidos e 45 dos mais vultosos endowments de universidades revelou que os aportes desses investidores institucionais em madeira poderão somar até 4 bilhões de dólares nos próximos cinco anos.

Nesse cenário, o Brasil desponta como um fornecedor quase natural: possui abundância de terras, clima propício para o plantio de árvores e conta com alta tecnologia de gestão de florestas, desenvolvida graças à forte indústria de papel e celulose. "A oportunidade que o país oferece é única e os estrangeiros já perceberam isso", diz Aldo de Cresci Neto, advogado do Fleury Malheiros, Gasparini, De Cresci e Nogueira de Lima, escritório paulista que assessora a maioria dos fundos estrangeiros interessados em aplicar recursos no Brasil.

Estima-se que até 2012 os investidores estrangeiros injetem por aqui algo em torno de 2 bilhões de dólares. Nesse novo mercado, um produto vem se destacando. Trata-se da teca, madeira nobre usada na fabricação de móveis de alto padrão, cujo metro cúbico pode chegar a custar 3 000 dólares no mercado internacional — seu principal concorrente, o mogno, exportado por países como Peru, custa cerca de 30% menos. Foi principalmente raças ao plantio de teca que a Nemus, com sede em Cuiabá, no Mato Grosso, conseguiu atrair o fundo de investimento europeu Phaunos. Atualmente, a Nemus possui 2 530 hectares de florestas de teca e de eucalipto no estado.

A área de plantio, porém, deve ser ampliada graças aos investimentos de 150 milhões de dólares que a Phaunos fará até o final do ano. A teca, uma árvore de origem asiática, seduziu também Guilherme Frering, o herdeiro e ex-controlador da Caemi, mineradora adquirida pela Vale em 2001. Frering é hoje o principal investidor da Companhia Vale do Araguaia, empresa criada discretamente em 2005 para investir no plantio da madeira.

Hoje, com 2 000 hectares de florestas nos estados de Mato Grosso e Goiás, a Vale do Araguaia busca um fundo de private equity interessado em se associar à companhia e dar fôlego ao plantio de árvores.
O negócio de plantio e manejo de florestas plantadas tem outro atrativo além da promessa de altos retornos financeiros. Em tempos de aquecimento global e patrulhamento ecológico, a atividade não apenas é considerada sustentável como ainda pode vir a ser remunerada por isso. A primeira possibilidade é com a geração de créditos de carbono. A mineira Plantar, uma das maiores gestoras de florestas de terceiros do país (responsável pela administração de florestas da Aracruz, por exemplo), foi pioneira ao vender créditos de carbono para o Banco Mundial em 2001.

O negócio foi fechado graças aos créditos que a Plantar, dona também de uma siderúrgica, obteve ao usar o carvão vegetal vindo de suas próprias florestas na produção de ferro-gusa, matéria-prima para a produção de aço (em geral, o combustível usado nesse processo é o carvão mineral, ecologicamente condenável). No ano passado, a empresa que ficou conhecida por seu gusa-verde deu início a uma nova empreitada. Em parceria com o grupo de origem norueguesa Lorentzen, sócio também da Aracruz, criou a Aflopar. A empresa, dona de 60 000 hectares de terras em Minas Gerais, tem como objetivo o plantio de eucaliptos para a produção de carvão vegetal.

O material será vendido a siderúrgicas que funcionam movidas a carvão mineral ou a carvão de florestas nativas. Hoje, produzir ferrogusa com carvão vegetal ainda é mais caro que com os métodos tradicionais. "Essa conta vai mudar", diz Geraldo Moura, fundador e presidente da Plantar. "Quando as siderúrgicas movidas a carvão vegetal começarem a compensar essa diferença vendendo créditos de carbono, vão perceber que a substituição é um bom negócio", diz ele. Segundo especialistas, o plantio de florestas tem outra vantagem ambiental que pode ser convertida em receitas. Com a alteração climática do planeta, é possível que no futuro os proprietários de florestas recebam
dinheiro para conservar as matas ciliares, responsáveis por manter vivos os rios que abastecem a região.

A medida, embora pareça um tanto estranha, já começa a ser adotada em países como Costa Rica, onde a indústria do turismo ajuda a financiar os custos de preservação de matas ciliares. "Não obtemos ainda esse tipo de vantagem financeira com nossos ativos, mas acredito que nos próximos anos eles serão avaliados e nossos investidores receberão dividendos", diz Cláudio Ramos, engenheiro florestal e representante no Brasil do americano Hancock Timber Resources Group (HTRG). Considerado a maior Timo do mundo, com 7,2 bilhões de dólares, o Hancock chegou no Brasil em 2005 e hoje é dono de 20 000 hectares de florestas de pinus no Paraná. Mesmo com tanto otimismo e capital aflorando, a onda dos investimentos florestais no Brasil não está protegida contra possíveis intempéries. "Como em qualquer negócio no país, a insegurança jurídica e a falta de garantias legais muitas vezes se sobrepõem às vantagens técnicas, ambientais ou ao clima político favorável", diz Ramos, do Hancock.

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